A entrevista concedida por Julio Severo à revista Cristianismo Hoje é histórica. Mostra de que lado está boa parte da imprensa sedizente evangélica no país. Para mim não foi surpresa. Desdenhando do posicionamento de Julio Severo, e não levando em conta suas denúncias e a importância dos temas que ele trata, confessaram muito daquilo que denuncio a respeito da mídia cristã e de muitos líderes da igreja no país. Resumo, em termo brandos: o bom-mocismo perante inimigos e falsificadores do Evangelho, e a postura subserviente aos ditames pós-moderninhos, politicamente-corretos e anticristãos hegemônicos. E claro, a superficialidade intelectual.
Não, queridos, o problema não é só do entrevistador. Nada sai numa revista sem a anuência de seu conselho editorial. Vale a pena ver quem são essas pessoas, e ficar cada vez mais atento com o que escrevem ou permitem que seja publicado. Bem, convenhamos... não dá para esperar muito de quem enche a bola de Brennan Manning, de Philip Yancey, o chefão da franquia, Ed René Kivitz e Rick Warren.
É bom ressaltar que esse pessoal possui imensa influência em editoras, universidades, seminários e grandes denominações. Conheci pessoalmente um dos atuais membros do conselho editorial da Cristianismo Hoje: Mark Carpenter, presidente da editora Mundo Cristão, e junto a ele, na ocasião, o atual editor da revista, Marcos Simas ex-proprietário da editora Textus, que tempos atrás se tornou “selo” da Mundo Cristão. Para ser sincero, pareceram-me cristãos sérios, e nada vi que apontasse neles descompromisso com o cristianismo bíblico. Mas aí ocorrem episódios como esse, evidencia-se o perfil da maior parte dos colunistas da publicação, problemas teológicos graves nos livros publicados, e a confessa admiração por autores como Brennan Manning. Fatos a deixar qualquer pessoa que creia na inerrância e na infalibilidade das Sagradas Escrituras, no mínimo, em alerta.
Simas e Carlos Fernandes, jornalista que assina a publicação e entrevistou Julio Severo, já trabalharam com Caio Fábio na antiga revista Vinde. Fica difícil, convenhamos, dissociar a forma com que Severo foi tratado de tais antecedentes.
Dos blogs, conheço outro do conselho editorial: o marqueteiro Volney Faustini, esquerdista e entusiasta da obra de caras como Robinson Cavalcanti e outros liberais teológicos. E lamento ao lembrar que Billy Graham havia originalmente fundado a Christianity Today como alternativa para uma revista evangélica “liberal” (leia-se adepta de ideologias coletivistas e de liberalismo teológico). Infelizmente hoje revista está cada vez mais parecida com o que Billy Graham desejava combater.
Fica aí o exemplo do que sempre comento aqui no blog, não sem críticas e “argumentos” contrários.
Depois as pessoas ainda se espantam do pouco peso que a igreja brasileira exerce sobre os rumos do país.
Leia também:
Liberdade: auto-governo e governo civil
Os evangélicos brasileiros e as causas do Anticristo
Esquerda, Direita e Cristianismo
Política à luz da Bíblia
Thursday, July 09, 2009
Confissão espontânea
Sunday, July 05, 2009
Contra o quê eles pelejam?
A verdade vem de Deus onde quer que a encontremos, e ela é nossa e é da igreja. Não devemos transformar tais coisas em ídolos, mas a verdade, onde quer que a encontremos, é da igreja.
Richard Sibbes, pastor puritano.
Quase todas as grandes questões discutidas na sociedade sobretudo ao longo dos últimos três séculos, por mais que pareçam meras disputas filosóficas, políticas, ideológicas e científicas, vão além disso. Se é verdade que os desdobramentos últimos das supostas resoluções desses problemas são sempre difíceis de prever, o aspecto subjacente que deve realmente ser identificado como o grande motor da questão deve ficar bem claro aos cristãos e não deve jamais ser perdido de vista: cada conflito existente no campo das idéias, é, em essência, uma batalha na guerra espiritual entre as verdades de Deus contra os sofismas das hostes de Satanás, aquele que vem para “roubar, matar e destruir”.
Sim, a verdade é invencível, pois ela vem de Deus, e Ele mesmo é o Caminho, a Verdade e a Vida. A luta daqueles que não conhecem a Deus e o rejeitam, esses que são “por natureza, filhos da ira”, não é uma luta contra a verdade. Contra ela, eles nada podem fazer, e em certa medida, dependem dela para transformar seus ensinamentos falsos em consenso no seio da sociedade. O que eles querem, por mais apaixonados que se digam pela verdade, é encobri-la. Tantos para eles mesmos como para os outros. Querem roubá-la dos que a possuem. Destruí-la desde dentro (ah, e quantos infiltrados na igreja de Cristo...) e desde fora (você conhece um intelectual e um “livre-pensador” típico).
É claro, contudo, que há muita gente séria, mas iludida, a defender mentiras diabólicas, e pessoas que sempre rejeitaram o Deus dos cristãos, mas não a totalidade das verdades que podem ser descobertas lendo as Escrituras ou observando com um mínimo de honestidade existencial e intelectual a Criação, pela qual muito se pode conhecer dos atributos do Criador.
Mais do que disputas entre linhas teóricas, perspectivas e versões da história, o que temos é uma guerra entre a verdade de Deus e a multidão de mentiras dos “réprobos quanto a fé”, como disse o apóstolo Pedro, dos cuja linguagem “corrói como o câncer”, segundo o apóstolo Paulo, dos aprisionados pelo príncipe deste mundo. Um mundo que “jaz no maligno”.
Parece um tanto dramático? Talvez sim, para alguns. Mas percebamos ou não, a cada verdade encoberta sobre o ser humano, sobre a estrutura da existência, sobre Deus e seus planos para a humanidade, o “inimigo de nossas almas” ganha terreno. E a vida piora já em nossa época, com resultados muitas vezes imediatos. Sem falar nas dificuldades crescentes em mostrar a seres humanos cada vez mais desnorteados intelectual, social e espiritualmente, as verdades excelsas do amor de Deus, seu plano de Redenção e sua vontade específica para cada homem, vontade que é “boa, perfeita e agradável”, por mais que muitas vezes incompreensível.
Note: em cada grande reivindicação, a cada grande polêmica levantada pelos “cidadãos do nosso tempo”, os portadores da tal “consciência moderna”, há sempre uma grande objeção à fé cristã, direta, ou subjacente. Dos abortistas aos planejadores sócio-econômicos, dos eco-fascistas aos cientificistas militantes, só se pode vê-los como “pessoas em busca de um mundo melhor” se o discípulo de Cristo entender que para os tais, “mundo melhor” é sinônimo de “mundo sem o Deus Verdadeiro e suas verdades”. Essa é a “luta” deles. Uma luta contra Deus, contra seu próprio Criador.
Richard Sibbes, pastor puritano.
Quase todas as grandes questões discutidas na sociedade sobretudo ao longo dos últimos três séculos, por mais que pareçam meras disputas filosóficas, políticas, ideológicas e científicas, vão além disso. Se é verdade que os desdobramentos últimos das supostas resoluções desses problemas são sempre difíceis de prever, o aspecto subjacente que deve realmente ser identificado como o grande motor da questão deve ficar bem claro aos cristãos e não deve jamais ser perdido de vista: cada conflito existente no campo das idéias, é, em essência, uma batalha na guerra espiritual entre as verdades de Deus contra os sofismas das hostes de Satanás, aquele que vem para “roubar, matar e destruir”.
Sim, a verdade é invencível, pois ela vem de Deus, e Ele mesmo é o Caminho, a Verdade e a Vida. A luta daqueles que não conhecem a Deus e o rejeitam, esses que são “por natureza, filhos da ira”, não é uma luta contra a verdade. Contra ela, eles nada podem fazer, e em certa medida, dependem dela para transformar seus ensinamentos falsos em consenso no seio da sociedade. O que eles querem, por mais apaixonados que se digam pela verdade, é encobri-la. Tantos para eles mesmos como para os outros. Querem roubá-la dos que a possuem. Destruí-la desde dentro (ah, e quantos infiltrados na igreja de Cristo...) e desde fora (você conhece um intelectual e um “livre-pensador” típico).
É claro, contudo, que há muita gente séria, mas iludida, a defender mentiras diabólicas, e pessoas que sempre rejeitaram o Deus dos cristãos, mas não a totalidade das verdades que podem ser descobertas lendo as Escrituras ou observando com um mínimo de honestidade existencial e intelectual a Criação, pela qual muito se pode conhecer dos atributos do Criador.
Mais do que disputas entre linhas teóricas, perspectivas e versões da história, o que temos é uma guerra entre a verdade de Deus e a multidão de mentiras dos “réprobos quanto a fé”, como disse o apóstolo Pedro, dos cuja linguagem “corrói como o câncer”, segundo o apóstolo Paulo, dos aprisionados pelo príncipe deste mundo. Um mundo que “jaz no maligno”.
Parece um tanto dramático? Talvez sim, para alguns. Mas percebamos ou não, a cada verdade encoberta sobre o ser humano, sobre a estrutura da existência, sobre Deus e seus planos para a humanidade, o “inimigo de nossas almas” ganha terreno. E a vida piora já em nossa época, com resultados muitas vezes imediatos. Sem falar nas dificuldades crescentes em mostrar a seres humanos cada vez mais desnorteados intelectual, social e espiritualmente, as verdades excelsas do amor de Deus, seu plano de Redenção e sua vontade específica para cada homem, vontade que é “boa, perfeita e agradável”, por mais que muitas vezes incompreensível.
Note: em cada grande reivindicação, a cada grande polêmica levantada pelos “cidadãos do nosso tempo”, os portadores da tal “consciência moderna”, há sempre uma grande objeção à fé cristã, direta, ou subjacente. Dos abortistas aos planejadores sócio-econômicos, dos eco-fascistas aos cientificistas militantes, só se pode vê-los como “pessoas em busca de um mundo melhor” se o discípulo de Cristo entender que para os tais, “mundo melhor” é sinônimo de “mundo sem o Deus Verdadeiro e suas verdades”. Essa é a “luta” deles. Uma luta contra Deus, contra seu próprio Criador.
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Saturday, May 23, 2009
Para avaliar a crítica à Igreja

Todo cristão sabe que viver o Evangelho não é tão simples. Tudo que é real, verdadeiro, é complexo, como complexa é a realidade, já observava C. S. Lewis. É só com a presença do Espírito Santo em sua vida, que o homem pode viver segundo os preceitos de Cristo, e perfeição, só com a Redenção plena consumada. Mesmo assim, estou pra ver um esporte tão irresponsavelmente praticado, algo ser feito de forma tão leviana quanto a crítica à Igreja. E aí estão as grandes publicações evangélicas, com gente séria, sim, disposta a exortar e a servir a seus irmãos, repartindo conhecimento, mas também com batalhões de pitaqueiros e suas colunas fixas, que não me deixam mentir.
Sem querer repetir o ar professoral dos textos insossos de muitos desses presunçosos, apresento aqui algumas perguntas que faço quando busco avaliar a qualidade do trabalho de alguns destes auto-nomeados guias da igreja brasileira. Algumas óbvias, algumas difíceis. Necessárias, mas não sei se suficientes. Mas que valem também para todas as outras leituras. Reportagens, aulas, ensaios, documentários, colunas de jornais, de revistas não-cristãs, etc.. Ao identificar fragilidades no meu método, aí está minha caixa de comentários. Me ajude.
1 - Quem a faz?
2 - De quê ele reclama?
3 - Como o faz? Ele está alicerçado numa visão de mundo realmente cristã, bíblica? Como é a sua argumentação? Há rigor lógico e conceitual na exposição de suas teses, ou tudo se reduz a opiniões pessoais? Aqui há uma questão fundamental: se você identificar uma lógica manca, falácias, conclusões que não condizem com as premissas, há boa probabilidade de você estar lendo um picareta. Outro ponto a ser destacado: o importante é que o colunista enxergue o objeto, o assunto do seu artigo com clareza. Às vezes uma argumentação aparentemente rigorosa esconde desconhecimento sobre aspectos elementares do assunto. Quem já leu o Delfim Neto sabe do que estou falando.
4 - De qual perspectiva? (teológica, política, filosófica, etc...)
5 - Quando a fez? Em que momento está, com quais contextos históricos faz comparações e qual é sua interpretação histórica?
6 - Por que a faz? O quê o motiva a fazê-la. (Se confessa suas motivações, comparar com os possíveis desdobramentos e conseqüências de tal crítica. Se o crítico não faz isso, seu histórico e posicionamentos intelectuais esclarecem muita coisa. Apelar para sub-freudismos chulos – mania nacional – do tipo: "ih, esse aí brigou com a mulher", não resolve o problema e evidencia mais a SUA tosquice intelectual do que a do crítico em análise. Tentar "ler as entrelinhas", no sentido de tentar identificar motivações de forma puramente subjetiva, fazendo eisegeses (impor sentidos ao texto) grosseiras – outra mania comum, que pegou graças ao freudismo tido em boa conta por muita gente, também confunde mais do que esclarece.)
7 - Como se dá a relação entre: identificação com o problema/intercessão/sentimentos/posições intelectuais que se evidenciam na crítica. A igreja é o Corpo de Cristo, a família com muito irmãos na qual Jesus é o primogênito, é a noiva do Senhor. Tendo sempre isso em mente, pode-se perceber se o autor escreve com o intuito de servir à igreja, com amor, ou apenas para aparecer, o que é muito comum.
8 – Qual o histórico, no campo da idéias, e o perfil dos entusiastas do posicionamento do crítico. Quem são, quem são seu mentores, quem são seus comparsas, o que pensam. Vale lembrar a promessa de Cristo sobre a possibilidade de conhecimento objetivo e certeiro quanto a isso: “Pelos frutos os conhecereis”. Glória somente ao Cordeiro!
Para concluir, mais duas observações:
1 - Se há dificuldades em tentar responder para si mesmo algumas dessas questões, e não é fácil mesmo – e se você considera fácil, cuidado -, busque cristãos sérios que possam orientar suas leituras, participe de grupos de estudo bíblico, teológico e filosófico. Eu faço parte de um, e ajuda muito. Lembre-se dos grandes heróis da fé, pregadores e avivalistas da história: sempre sedentos por Deus, e incansáveis na busca por conhecimento.
2 – Sim, a mula pode falar a Balaão. Deus pode usar quem menos imaginávamos, para nos mostrar fatos e verdades importantes do que tem acontecido à igreja e sobre o que ela tem feito. Por mais que discordemos de tudo mais que a mula defenda. Mas a mula falar é a exceção, não a regra, e cautela é necessária.
Se você quiser fazer crítica eclesiológica:
Sem buscar discernimento e sabedoria da parte de Deus, e sem base nas Escrituras, nem comece. Você será parte do problema, e só contribuirá para o diagnóstico como amostra, evidenciando sintomas. Nesse sentido, todo cristão dá sua contribuição, queira ou não. Já o número dos que têm algo a acrescentar, a edificar, é muito menor.
E só faça isso se você tem tal chamado. Não imite esses intelectualóides frívolos que são pagos para encher de letrinhas as páginas de certas revistas ditas evangélicas. Não se exponha ao ridículo, você é filho do Rei do Reis.
Saturday, May 02, 2009
Declan Ganley e o Libertas: resistência à proto-ditadura européia
Publicado no site Mídia Sem Máscara.

Que a União Européia é o modelo maior de estado supra-nacional que, aos poucos vai corroendo toda a autonomia política, jurídica, econômica, militar e mesmo cultural dos países que a ela se inserem, só ainda não vê quem não quer. Mas a resistência a essa proto-ditadura também já adquire contornos pan-europeus. E um dos fatos mais visíveis nesse sentido é a atuação do empresário irlandês Declan Ganley, fundador e líder do movimento Libertas, um dos principais responsáveis pela vitória na “campanha do não” na Irlanda em junho passado, no único país europeu em que a opinião do povo foi levada em conta, por meio de referendo, no que tange à adesão ao Tratado de Lisboa, que confere ainda mais poder à Comunidade Européia sobre os países membros.
Quase nada se falou, nem mesmo nos meios conservadores, sobre Declan Ganley até agora. Como jornalista, considero muito alta a possibilidade de que seu nome fique conhecido em âmbito mundial por meio da caricatura e do factóide, já que ele é, sim, uma pedra no sapato das hordas “globalitárias”. Por isso, é bom passar algumas informações sobre Ganley, o Libertas e o porquê de sua relevância na esfera política mundial, antes que a desinformatsia da New World Order o faça.
Declan James Ganley tem 40 anos e é presidente da Rivada Networks, empresa de telecomunicações que fez amplos investimentos no leste europeu. Tem experiência em gestão de grandes projetos públicos nas áreas de economia, segurança, tecnologia e assuntos estratégicos, tendo atuado em países como Letônia, Rússia e nos Estados Unidos, onde foi premiado por seu auxílio à restauração das redes de segurança pública no estado de Louisiana. Mas, ao contrário dos típicos empresários brasileiros, que, estupidificados, se inflam de “culpa burguesa” e logo passam a papagaiar os slogans de vigaristas da “responsabilidade social” como Oded Grajew, Ganley tem uma visão muito clara dos rumos políticos que o mundo tomará se as pessoas que amam a liberdade e ainda dela desfrutam não se posicionarem. Fundou o primeiro movimento político pan-europeu, o Libertas, que denuncia a falta de transparência, a natureza antidemocrática e desrespeito pelos interesses dos países que integram a União Européia.
À frente do Libertas, Ganley ficou conhecido como “Mr. No”, “Senhor Não”, durante a campanha sobre o Tratado de Lisboa, mobilizando ativistas em toda a Irlanda que se valeram de cartazes, panfletos e helicópteros para denunciar o autoritarismo e os equívocos nas medidas econômicas presentes no documento que vale como uma nova Constituição Européia. Como o próprio premier irlandês Brian Cowe admitiu não ter lido na ocasião o Tratado na íntegra, Ganley se posicionou perante a população como “o homem que leu o tratado”. Mesmo admitindo não ser contrário à integração do bloco, no site do Libertas a mensagem é clara:
O outrora honesto e inclusivo governo da União tornou-se irresponsável, sombrio e antidemocrático. Os Tratados propostos recentemente iriam alargar o fosso entre as elites governantes de Bruxelas e o povo Europeu. E lamentavelmente quando esses tratados foram rejeitados pelo povo Francês, Holandês e Irlandês, a vontade democrática do povo foi ignorada.
Como pode se ver, lá, como cá, quando se trata dos interesses dos globalistas e da burocracia assentada em Bruxelas – como legalização do aborto, eutanásia, desarmamento, intrusões nas liberdades individuais, etc. – todo sim é definitivo e torna-se cláusula pétrea na legislação, e todo não é provisório. Deve ser driblado ou contestado por meio de novo referendo, dois ou três anos depois. Vale lembrar que o Tratado de Lisboa foi submetido a referendo na Irlanda três anos após o colapso da Constituição da UE. A tartaruga dos socialistas fabianos de Bruxelas e da ONU pode até ser lenta, mas é pesada, teimosa, e pouco disfarça seu modus operandi autoritário.
À época do referendo irlandês, Mario Vargas Llosa alertou que a cada derrota dos eurófilos, novas medidas de centralização de poder são tomadas, sem levar em conta a preocupação dos cidadãos com o aumento da burocracia européia e que uma Carta de Direitos significativa não poderia surgir e ter legitimidade num contexto desses. É nessa tecla que o Libertas toca, e com isso obtém cada vez mais atenção, passando a ser visto como uma alternativa viável para as eleições para o Parlamento Europeu, que serão em junho, com o movimento lançando candidatos por todo o Velho Continente.
Neste dia 1o de maio, acontece a primeira convenção do Libertas, Roma, com a presença e apoio de Lech Walesa, que já declarou que o Libertas tem potencial para fazer a Europa mudar para melhor. A repercussão vai aumentar, e as notícias chegarão. Provavelmente tortas. Mas vale a pena aguardar.

Que a União Européia é o modelo maior de estado supra-nacional que, aos poucos vai corroendo toda a autonomia política, jurídica, econômica, militar e mesmo cultural dos países que a ela se inserem, só ainda não vê quem não quer. Mas a resistência a essa proto-ditadura também já adquire contornos pan-europeus. E um dos fatos mais visíveis nesse sentido é a atuação do empresário irlandês Declan Ganley, fundador e líder do movimento Libertas, um dos principais responsáveis pela vitória na “campanha do não” na Irlanda em junho passado, no único país europeu em que a opinião do povo foi levada em conta, por meio de referendo, no que tange à adesão ao Tratado de Lisboa, que confere ainda mais poder à Comunidade Européia sobre os países membros.
Quase nada se falou, nem mesmo nos meios conservadores, sobre Declan Ganley até agora. Como jornalista, considero muito alta a possibilidade de que seu nome fique conhecido em âmbito mundial por meio da caricatura e do factóide, já que ele é, sim, uma pedra no sapato das hordas “globalitárias”. Por isso, é bom passar algumas informações sobre Ganley, o Libertas e o porquê de sua relevância na esfera política mundial, antes que a desinformatsia da New World Order o faça.
Declan James Ganley tem 40 anos e é presidente da Rivada Networks, empresa de telecomunicações que fez amplos investimentos no leste europeu. Tem experiência em gestão de grandes projetos públicos nas áreas de economia, segurança, tecnologia e assuntos estratégicos, tendo atuado em países como Letônia, Rússia e nos Estados Unidos, onde foi premiado por seu auxílio à restauração das redes de segurança pública no estado de Louisiana. Mas, ao contrário dos típicos empresários brasileiros, que, estupidificados, se inflam de “culpa burguesa” e logo passam a papagaiar os slogans de vigaristas da “responsabilidade social” como Oded Grajew, Ganley tem uma visão muito clara dos rumos políticos que o mundo tomará se as pessoas que amam a liberdade e ainda dela desfrutam não se posicionarem. Fundou o primeiro movimento político pan-europeu, o Libertas, que denuncia a falta de transparência, a natureza antidemocrática e desrespeito pelos interesses dos países que integram a União Européia.
À frente do Libertas, Ganley ficou conhecido como “Mr. No”, “Senhor Não”, durante a campanha sobre o Tratado de Lisboa, mobilizando ativistas em toda a Irlanda que se valeram de cartazes, panfletos e helicópteros para denunciar o autoritarismo e os equívocos nas medidas econômicas presentes no documento que vale como uma nova Constituição Européia. Como o próprio premier irlandês Brian Cowe admitiu não ter lido na ocasião o Tratado na íntegra, Ganley se posicionou perante a população como “o homem que leu o tratado”. Mesmo admitindo não ser contrário à integração do bloco, no site do Libertas a mensagem é clara:
O outrora honesto e inclusivo governo da União tornou-se irresponsável, sombrio e antidemocrático. Os Tratados propostos recentemente iriam alargar o fosso entre as elites governantes de Bruxelas e o povo Europeu. E lamentavelmente quando esses tratados foram rejeitados pelo povo Francês, Holandês e Irlandês, a vontade democrática do povo foi ignorada.
Como pode se ver, lá, como cá, quando se trata dos interesses dos globalistas e da burocracia assentada em Bruxelas – como legalização do aborto, eutanásia, desarmamento, intrusões nas liberdades individuais, etc. – todo sim é definitivo e torna-se cláusula pétrea na legislação, e todo não é provisório. Deve ser driblado ou contestado por meio de novo referendo, dois ou três anos depois. Vale lembrar que o Tratado de Lisboa foi submetido a referendo na Irlanda três anos após o colapso da Constituição da UE. A tartaruga dos socialistas fabianos de Bruxelas e da ONU pode até ser lenta, mas é pesada, teimosa, e pouco disfarça seu modus operandi autoritário.
À época do referendo irlandês, Mario Vargas Llosa alertou que a cada derrota dos eurófilos, novas medidas de centralização de poder são tomadas, sem levar em conta a preocupação dos cidadãos com o aumento da burocracia européia e que uma Carta de Direitos significativa não poderia surgir e ter legitimidade num contexto desses. É nessa tecla que o Libertas toca, e com isso obtém cada vez mais atenção, passando a ser visto como uma alternativa viável para as eleições para o Parlamento Europeu, que serão em junho, com o movimento lançando candidatos por todo o Velho Continente.
Neste dia 1o de maio, acontece a primeira convenção do Libertas, Roma, com a presença e apoio de Lech Walesa, que já declarou que o Libertas tem potencial para fazer a Europa mudar para melhor. A repercussão vai aumentar, e as notícias chegarão. Provavelmente tortas. Mas vale a pena aguardar.
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Monday, March 02, 2009
150 anos de “A Origem das Espécies”. Comemorar o quê?
Nem os evolucionistas, nem a humanidade em geral, têm o quê comemorar com os 150 anos da publicação da primeira edição do livro A Origem das Espécies, de Charles Darwin. Os primeiros, com um mínimo de honestidade intelectual, devem perceber que, ao longo deste século e meio, pulularam fortes objeções às suas mais preciosas convicções. Da gritante ausência nos registros fósseis (alguns até falsos, forjados) até à fragilidade metodológica da Datação Geralmente Aceita (DGA), (imprescindível para defender uma idade da Terra muita alta, condição necessária – mas não suficiente - para a evolução), sem falar no tiroteio teórico existente entre darwinistas clássicos, os heterodoxos e de outras linhas evolucionistas. Entre eles há autores chegando a dizer que o evolucionismo nem sequer é uma teoria, como Robert Peters. Enfim, a situação deles é complicada.
Sim, no imaginário coletivo, a força do evolucionismo é grande. Muita gente ainda confunde acreditar em dinossauros com acreditar que uma ameba virou macaco, e o macaco virou homem. É entre os leigos que eles desfrutam de outro triunfo, mais fácil de desmascarar, contudo: fizeram o povo pensar que há um problema grave com o fato de uma teoria científica, como é o caso de sua principal “rival”, o criacionismo, ter inspiração religiosa. Mas não há nenhum problema real de ordem científica nisso, e, na verdade, o mesmo se aplica ao evolucionismo: Darwin apenas deu uma roupagem ateísta e científica a uma velha crendice gnóstica (o que Marx fez com o socialismo, que muito antes dele já inspirava as conversas de velhos círculos ocultistas, teosóficos e espíritas europeus. Acorde para a vida, “esquerda cristã” ignorante!).
Para piorar, autores como Richard Dawkins, querendo transformar a teoria em fato e chegando a conclusões grosseiras por meio de argumentos pseudo-filosóficos que beiram a infantilidade intelectual (vejam o que tem a dizer Alvin Plantinga, Alister McGrath ou William Lane Craig a respeito), envergonham e descredibilizam ainda mais o representantes sérios do evolucionismo. “Não me confunda com ele”, disse um cientista ateu para McGrath.
Para a humanidade em geral também, nada a comemorar. O evolucionismo contribui para dar ares de cientificidade ao racismo. E aí estão os textos de Darwin e de discípulos seus como Haekel e Huxsley. Também transformou em “verdade científica” o que há de mais irracional: algumas das piores ideologias. Estas, por definição, desprezam a mediação empírica com a realidade. Como negar o apoio da teoria da evolução ao socialismo, esse monstro que gerou mentalidades, governos e outras instituições genocidas? Como negar as ligações entre o nazismo e essa teoria, além do fato do nazismo nada mais ser do que uma derivação nacionalista alemã do socialismo?
Também não há como negar que, mesmo tendo origens no gnosticismo, a teoria da evolução foi talvez a principal causadora da cisão entre a ciência e a fé na mentalidade moderna. Não foram poucos os que perderam a fé graças a essa falsa dicotomia, que, mesmo em muitos dos mais inteligentemente espirituais, reduziu suas certezas a um fideísmo (usar a razão para afirmar, sobre a fé, que fé e razão não se misturam) tosco que emburreceu as massas, e jogou o homem moderno num vácuo espiritual e num labirinto cognitivo do qual grandes contingentes de cristãos ainda têm dificuldade em encontrar a saída.
Leia também Cientificismo no ar: a nova ordem da ignorância mundial
Sim, no imaginário coletivo, a força do evolucionismo é grande. Muita gente ainda confunde acreditar em dinossauros com acreditar que uma ameba virou macaco, e o macaco virou homem. É entre os leigos que eles desfrutam de outro triunfo, mais fácil de desmascarar, contudo: fizeram o povo pensar que há um problema grave com o fato de uma teoria científica, como é o caso de sua principal “rival”, o criacionismo, ter inspiração religiosa. Mas não há nenhum problema real de ordem científica nisso, e, na verdade, o mesmo se aplica ao evolucionismo: Darwin apenas deu uma roupagem ateísta e científica a uma velha crendice gnóstica (o que Marx fez com o socialismo, que muito antes dele já inspirava as conversas de velhos círculos ocultistas, teosóficos e espíritas europeus. Acorde para a vida, “esquerda cristã” ignorante!).
Para piorar, autores como Richard Dawkins, querendo transformar a teoria em fato e chegando a conclusões grosseiras por meio de argumentos pseudo-filosóficos que beiram a infantilidade intelectual (vejam o que tem a dizer Alvin Plantinga, Alister McGrath ou William Lane Craig a respeito), envergonham e descredibilizam ainda mais o representantes sérios do evolucionismo. “Não me confunda com ele”, disse um cientista ateu para McGrath.
Para a humanidade em geral também, nada a comemorar. O evolucionismo contribui para dar ares de cientificidade ao racismo. E aí estão os textos de Darwin e de discípulos seus como Haekel e Huxsley. Também transformou em “verdade científica” o que há de mais irracional: algumas das piores ideologias. Estas, por definição, desprezam a mediação empírica com a realidade. Como negar o apoio da teoria da evolução ao socialismo, esse monstro que gerou mentalidades, governos e outras instituições genocidas? Como negar as ligações entre o nazismo e essa teoria, além do fato do nazismo nada mais ser do que uma derivação nacionalista alemã do socialismo?
Também não há como negar que, mesmo tendo origens no gnosticismo, a teoria da evolução foi talvez a principal causadora da cisão entre a ciência e a fé na mentalidade moderna. Não foram poucos os que perderam a fé graças a essa falsa dicotomia, que, mesmo em muitos dos mais inteligentemente espirituais, reduziu suas certezas a um fideísmo (usar a razão para afirmar, sobre a fé, que fé e razão não se misturam) tosco que emburreceu as massas, e jogou o homem moderno num vácuo espiritual e num labirinto cognitivo do qual grandes contingentes de cristãos ainda têm dificuldade em encontrar a saída.
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Tuesday, December 23, 2008
Cosmovisão cristã ou subserviência intelectual tosca?

Já está se tornando um personagem comum, típico em quase todas as igrejas, e principalmente, caricato. Mais ridículo ainda ficam seus trejeitos, cacoetes e mantras quando começa a liderar um "ministério", uma "rede" ou uma ONG (uau...). Senhoras e senhores, eu duvido que vocês já não tenham trombado com o novo intelectual evangélico brasileiro. Aquele rapazinho entre 25 e 30 anos de idade, que trabalha como professor, com meia-dúzia de livros lidos e uma pós-graduação mequetrefe que lhe confere a sensação e o prestígio entre os incautos para falar com autoridade sobre assuntos como sociologia, economia política, globalização, etc...
Como todo intelectual, ele é questionador. Se vê e quer ser visto como alguém que tudo questiona. Reclama da "alienação" alheia (sim, o esclarecido é ele) e está preocupado com as injustiças desse mundo e com a pobreza (sim, os egoístas são os outros).
O mais esquisito é que ele sempre está com nomes como Spurgeon, Lewis e Baxter na boca, criticando a forma com que a igreja (aliás, ele não pára de criticar a igreja) deixou sua fé manifestar-se unicamente na esfera pessoal, privada, e não a aplicou a todas as amplas questões que envolvem o convívio humano, a sociedade, a cultura, etc. Na verdade, ele não tem muito mais do que isso para falar. É esquisito porque esse intelectualzinho que vive de barba mal-feita comete exatamente o mesmo erro. Quanto mais falam em "cosmovisão cristã", em "visão integral" e afins, mais dá para perceber que ele entendeu muito pouco do que criam os autores que ele diz ser seus preferidos.
Na verdade, eles só citam desses autores aquilo que lhes interessa. O que nem sempre tem a ver com o "examinai tudo, retém o que é bom". Porque esse personagem tão comum aprendeu tantas coisas alheias não só ao que estes autores defendiam, mas à própria Bíblia, ao longo de sua vida, digamos, intelectual, que a última coisa esperável dessas figurinhas é essa visível incoerência e a fragmentação de seu conhecimento, não só digna de pena, porque ela é bem compreensível, tendo um fato claro a seu respeito: com a recusa metafísica característica da modernidade, houve a perda do sentido de conhecimento integrado, de uma cosmovisão cristã plena e articulada, na qual todas as principais teses convergem para os mesmas premissas, para os mesmos alicerces, numa epistemologia sólida, ao longo dos últimos dois séculos. Isso afetou também a igreja de Cristo, e num Brasil de educação precária, com os piores índices de desempenho educacional e com uma elite intelectual que taxa o Cristianismo, nos meios acadêmicos, como o pior conjunto de idéias que já apareceu sobre a Terra ao longo da história, não se poderia esperar outra coisa desse pelotão de presunçozinhos.
O resultado não poderia ser mais trágico: cristãos bem intencionados, mas sem o menor preparo para lidar com as questões as quais se propõem a lidar. Uma rápida passeada pelos blogs, pelos sites dos mil e um "ministérios" e das tais redes e ONG´s evangélicas, e um fato salta aos olhos: a "escolinha Jimmy Carter" deixou seus frutos (e frutas, mas deixa pra lá...). E o que é fazer parte da 'escolinha Jimmy Carter'? Simples: é, com a melhor das intenções, confiar no seu próprio entendimento, para, como cristão, dar apoio a tudo aquilo que não presta e se opõe à fé cristã.
É trocar figurinhas, idéias e apoio com partidos políticos abortistas e defensores do lobby gay. É, criticar os EUA para defender grupos de assassinos de cristãos, como os comunistas e os radicais islâmicos. É defender vastas intervenções do Estado na economia, e reclamar da pobreza. E por quê eles fazem isso? Porque o típico intelectualóide evangélico quer agir como cristão, mas aprendeu a ver o pobre como Marx. Quer ver a natureza como Deus vê, mas Stephen Jay Gould e os impostores do Greenpeace não saem de sua cabeça. Quer educação cristã em toda parte, mas louva Paulo Freire. Quer uma economia próspera, como tudo que está alinhado com os valores do Reino de Deus, mas aprenderam que a receita certa está em Keynes, ou, pior, em Lênin. Sonha com uma arte cristã mais rica, mas não conseguem admirar o que vai muito além do punk-rock e da literatura beatnik.
Querem um Brasil entregue a Jesus, mas agem como Robinson Cavalcanti, Rick Warren e outros militantes que se alinham e defendem instituições com agendas anti-cristãs na base, na essência, e em cada linha de seus estatutos.
Notem: eles sempre têm uma crítica à igreja na ponta da língua. E um louvor a qualquer Dawkins, Gandhi ou John Lennon da vida. Ele está tão a frente da "mentalidade atrasada que ainda há em nossas igrejas", que suas afinidades com os valores seculares não podem ser tidas como esclarecimento. É pura subserviência, é puro medo de desagradar seus ídolos mundanos.
J.P. Coutinho tempos atrás chamou este típico evangélico "preocupado com questões sociais", Jimmy Carter, de idiota útil. Útil aos que odeiam aquilo que Carter dizia defender. É difícil encontrar nome mais apropriado para esse imenso contingente de evangélicos brasileiros metidos a críticos, mas que nada mais são do que papagaios do Anticristo.
Tuesday, November 18, 2008
Flusser e a remagicização do mundo pela fotografia
Vilém Flusser, em sua coletânea de ensaios Filosofia da Caixa Preta, apresenta análises que considera como elementares para a construção de um arcabouço filosófico sobre a fotografia e suas relações com a condição humana, a história da comunicação e das representações das cosmovisões, seja as mais antigas e tribais bem como no mundo moderno, no qual a fotografia é inventada, fato que Flusser considera tão importante como a invenção da escrita:
Textos foram inventados no momento de crise das imagens, a fim de ultrapassar o perigo da idolatria. Imagens técnicas foram inventadas no momento de crise dos textos, a fim de ultrapassar o perigo da textolatria. Tal intenção implícita das imagens precisa ser explicitada.
Flusser aponta essa relação texto-imagem como fundamental para a compreensão da história do Ocidente, relação de conflito, mas dialética, na qual cada pólo absorve aspectos do outro, e faz com que imaginação – capacidade de compor e decifrar imagens – e conceituação – capacidade de compor e decifrar textos – se neguem e se reforcem mutuamente. As conseqüências diretas na produção de conhecimento e na cultura de massa são indicadas pelo filósofo. A crise dos textos gera o naufrágio da História, e surgem as imagens técnicas para suplantar essa ruptura. Mas Flusser não deixa de apontar para o risco da total substituição dos textos por tais imagens, que apenas aparentemente não são frutos “da cabeça” de um artista que lida com imagens, como um pintor. O fotógrafo e seu aparelho também fabricam suas imagens, e é por passar a impressão que esse processo, na produção das imagens técnicas, é menor, menos intenso, que ele denomina o complexo aparelho-operador de caixa-preta. Alusão ágil, que vai do aspecto físico e mecânico da máquina fotográfica ao mistério das caixas pretas das aeronaves, que ao seu modo também registram fatos, sempre de uma forma por demais discreta. Flusser, com tal metáfora, focaliza a natureza e a atividade do aparelho fotográfico e o trabalho do fotógrafo.
Quem vê input e output vê o canal e não o processo codificador que se passa no interior da caixa preta.
Aqui, o filósofo tcheco-brasileiro dá a direção e a chave para a crítica:
Toda crítica da imagem técnica deve visar o branqueamento dessa caixa. Dada a dificuldade de tal tarefa, somos por enquanto analfabetos em relação às imagens técnicas. Não sabemos decifrá-las.
Filósofo completo, que soube encarar as fragilidades conceituais do cartesianismo, com uma teoria do conhecimento própria, forjada com ferramentas conceituais de alta precisão na obra A Dúvida, em que impõe aos entusiastas do trabalho de René Descartes pesadas e bem fundamentadas objeções ao de omnibus dubitare do qual tanto se valem os céticos modernos, Vilém Flusser não deixa de apresentar em Filosofia da Caixa Preta a força de sua gnosiologia. Livre de racionalismos, vale-se da racionalidade ao investigar o ato de fotografar, a câmera, a fotografia na folha, os aspectos físicos da produção das imagens técnicas e os aspectos psicológicos, semiológicos e sociais da recepção de tais imagens. Ou seja, mais que meramente racional, Flusser também é empírico, e assim concilia habilmente o potencial de escolas filosóficas que muito se digladiaram ao longo da história da construção do pensamento ocidental sem perceber os adeptos de uma ala e da outra que a solução para tal problema já estava presente onde tudo começou, na obra do principal estruturador da forma ocidental de pensar: Aristóteles. Também outras dimensões do conhecimento humano estão ali presentes, contribuindo. Ali está o sensório-motriz, e também as intencionalidades, as ações e paixões, o aspecto fronético do conhecimento, enfim.
Entretanto, com a humildade que aos grandes mestres pertence e o torna gigantes, Flusser não passa por cima da dúvida enquanto ferramenta para empreendimentos teóricos sérios: cada verbete do glossário que ele, didaticamente, apresenta ao início da coletânea de ensaios contém o sentido que ele mesmo avisa que é provisório. Flusser sequer tenta fincar estacas. Quer apenas mapear o terreno. Mas o faz com tanta propriedade que já não é possível, ao ver as bases, deixar de visualizar ao menos o “esqueleto” de uma casa que tantos outros almejam alocar tijolos e abrir janelas. Hábil arquiteto, Vilém Flusser sabe trazer à vista o arché de um novo tema para a filosofia como poucos filósofos. Com sua visão privilegiada, não pisa nos ovos das cobras que picaram os olhos de outros pensadores, que, cegos, podem comprometer a importante tarefa filosófica a que ele se propõe e a outros convida: decifrar as imagens técnicas – as imagens produzidas por aparelhos.
E é na força da crítica e da reflexão filosófica que Flusser acredita para que a humanidade possa superar a remagicização e manipulação imposta pelas imagens técnicas. “A crítica pode ainda desmagicizar a imagem”. A cegueira de alguns ele considera monstruosa e de antemão os tem como incapazes de cooperar para o empreendimento que propõe: para ele, o crítico pode estar também envolvido, também programado para uma visão mágica do mundo, vendo forças ocultas em toda parte. Desta forma, o próprio aparelho tornar-se-á uma força oculta: o jornal, o partido, a agência de publicidade,o parque industrial são deuses a serem exorcizados pela fotografia e tudo isso, para Vilém Flusser, não passará de hierofania de segundo grau. E dispara: “a crítica da Escola de Frankfurt é um bom exemplo desse paganismo de segundo grau, exorcismo do exorcismo”.
“A realidade da guerra do Líbano, a realidade ela mesma está na fotografia. Não pode estar alhures. Se o receptor da fotografia for para o Líbano ver a guerra com seus próprios olhos, estará vendo a mesma cena, já que olha tudo pelas categorias da fotografia. Está programado para ver magicamente”. E não só tal homem está programado – e entenda-se aqui programa como “jogo de combinação com elementos claros e distintos”, como os próprios fotógrafos e críticos. Esses elementos estão na estrutura do aparelho, nas teorias aplicadas na construção de todo o material necessário para se construir uma câmera, para se fazer fotografia. Papel, lentes, filmes, etc. Todo o processo de abstração dos eventos, transmutados na fotografia como mera cena, para Flusser, dependem da categorização que todos esses elementos irão gerar, que com uma boa sacada resume a condição digamos, cognitiva da fotografia enquanto tentativa de apreender algum dado da realidade:
Em fenomenologia fotográfica, Kant é inevitável.
Para Kant, conhecemos segundo podemos conhecer, mas não conhecemos a “coisa-em-si”. Flusser identifica na fotografia a metáfora mais precisa da incognoscibilidade do “númeno” defendida pelo baixinho de Köenigsberg. Com fotos e câmeras, tudo o que temos é “fenômeno”. Para superar a alienação que aparelhos com essa condição geraram nos homens da cultura massificada, que pensou o aparelho e agora pensa sob as categorias do aparelho (e Flusser lembra que o mesmo processo aconteceu no século XVIII – o “mecanicismo”) há que se debruçar sobre os quatro problemas essenciais da fotografia, que Flusser aponta: o do aparelho, que é “infra-humanamente estúpido e pode ser enganado”; os programas, que permitem a inserção de elementos humanos não previstos; as informações que implicam símbolos; e a imagem que implica magia. Os fotógrafos experimentais, segundo Flusser sabem que são os problemas da imagem, do aparelho, dos programas e das informações que devem ser resolvidos.
“Urge uma filosofia da fotografia para que a práxis fotográfica seja conscientizada” afirma Flusser, que, com tais reflexões e análises, remete à crítica de C. S. Lewis sobre a produção de conhecimento técnico do homem, que antes de libertá-lo, escraviza-o. “A conquista da Natureza pelo Homem, caso se realizem os sonhos de alguns cientistas planejadores, significaria que algumas centenas de homens estariam governando os destinos de bilhões e bilhões.” Para Lewis, a cada avanço tecnológico, a humanidade corre o risco de aumentar o domínio do homem pelo homem, e não necessariamente aumentar o domínio do homem sobre a natureza. Flusser parece ter uma visão muito clara disso, e considera a atividade filosófica como uma busca pela liberdade. No que concerne à fotografia, seu esforço neste sentido fica evidente na seguinte declaração: “a filosofia da fotografia é necessária porque é reflexão sobre possibilidades de se viver livremente num mundo programado por aparelhos. Reflexão sobre o significado que o homem pode dar a vida”.
Textos foram inventados no momento de crise das imagens, a fim de ultrapassar o perigo da idolatria. Imagens técnicas foram inventadas no momento de crise dos textos, a fim de ultrapassar o perigo da textolatria. Tal intenção implícita das imagens precisa ser explicitada.
Flusser aponta essa relação texto-imagem como fundamental para a compreensão da história do Ocidente, relação de conflito, mas dialética, na qual cada pólo absorve aspectos do outro, e faz com que imaginação – capacidade de compor e decifrar imagens – e conceituação – capacidade de compor e decifrar textos – se neguem e se reforcem mutuamente. As conseqüências diretas na produção de conhecimento e na cultura de massa são indicadas pelo filósofo. A crise dos textos gera o naufrágio da História, e surgem as imagens técnicas para suplantar essa ruptura. Mas Flusser não deixa de apontar para o risco da total substituição dos textos por tais imagens, que apenas aparentemente não são frutos “da cabeça” de um artista que lida com imagens, como um pintor. O fotógrafo e seu aparelho também fabricam suas imagens, e é por passar a impressão que esse processo, na produção das imagens técnicas, é menor, menos intenso, que ele denomina o complexo aparelho-operador de caixa-preta. Alusão ágil, que vai do aspecto físico e mecânico da máquina fotográfica ao mistério das caixas pretas das aeronaves, que ao seu modo também registram fatos, sempre de uma forma por demais discreta. Flusser, com tal metáfora, focaliza a natureza e a atividade do aparelho fotográfico e o trabalho do fotógrafo.
Quem vê input e output vê o canal e não o processo codificador que se passa no interior da caixa preta.
Aqui, o filósofo tcheco-brasileiro dá a direção e a chave para a crítica:
Toda crítica da imagem técnica deve visar o branqueamento dessa caixa. Dada a dificuldade de tal tarefa, somos por enquanto analfabetos em relação às imagens técnicas. Não sabemos decifrá-las.
Filósofo completo, que soube encarar as fragilidades conceituais do cartesianismo, com uma teoria do conhecimento própria, forjada com ferramentas conceituais de alta precisão na obra A Dúvida, em que impõe aos entusiastas do trabalho de René Descartes pesadas e bem fundamentadas objeções ao de omnibus dubitare do qual tanto se valem os céticos modernos, Vilém Flusser não deixa de apresentar em Filosofia da Caixa Preta a força de sua gnosiologia. Livre de racionalismos, vale-se da racionalidade ao investigar o ato de fotografar, a câmera, a fotografia na folha, os aspectos físicos da produção das imagens técnicas e os aspectos psicológicos, semiológicos e sociais da recepção de tais imagens. Ou seja, mais que meramente racional, Flusser também é empírico, e assim concilia habilmente o potencial de escolas filosóficas que muito se digladiaram ao longo da história da construção do pensamento ocidental sem perceber os adeptos de uma ala e da outra que a solução para tal problema já estava presente onde tudo começou, na obra do principal estruturador da forma ocidental de pensar: Aristóteles. Também outras dimensões do conhecimento humano estão ali presentes, contribuindo. Ali está o sensório-motriz, e também as intencionalidades, as ações e paixões, o aspecto fronético do conhecimento, enfim.
Entretanto, com a humildade que aos grandes mestres pertence e o torna gigantes, Flusser não passa por cima da dúvida enquanto ferramenta para empreendimentos teóricos sérios: cada verbete do glossário que ele, didaticamente, apresenta ao início da coletânea de ensaios contém o sentido que ele mesmo avisa que é provisório. Flusser sequer tenta fincar estacas. Quer apenas mapear o terreno. Mas o faz com tanta propriedade que já não é possível, ao ver as bases, deixar de visualizar ao menos o “esqueleto” de uma casa que tantos outros almejam alocar tijolos e abrir janelas. Hábil arquiteto, Vilém Flusser sabe trazer à vista o arché de um novo tema para a filosofia como poucos filósofos. Com sua visão privilegiada, não pisa nos ovos das cobras que picaram os olhos de outros pensadores, que, cegos, podem comprometer a importante tarefa filosófica a que ele se propõe e a outros convida: decifrar as imagens técnicas – as imagens produzidas por aparelhos.
E é na força da crítica e da reflexão filosófica que Flusser acredita para que a humanidade possa superar a remagicização e manipulação imposta pelas imagens técnicas. “A crítica pode ainda desmagicizar a imagem”. A cegueira de alguns ele considera monstruosa e de antemão os tem como incapazes de cooperar para o empreendimento que propõe: para ele, o crítico pode estar também envolvido, também programado para uma visão mágica do mundo, vendo forças ocultas em toda parte. Desta forma, o próprio aparelho tornar-se-á uma força oculta: o jornal, o partido, a agência de publicidade,o parque industrial são deuses a serem exorcizados pela fotografia e tudo isso, para Vilém Flusser, não passará de hierofania de segundo grau. E dispara: “a crítica da Escola de Frankfurt é um bom exemplo desse paganismo de segundo grau, exorcismo do exorcismo”.
“A realidade da guerra do Líbano, a realidade ela mesma está na fotografia. Não pode estar alhures. Se o receptor da fotografia for para o Líbano ver a guerra com seus próprios olhos, estará vendo a mesma cena, já que olha tudo pelas categorias da fotografia. Está programado para ver magicamente”. E não só tal homem está programado – e entenda-se aqui programa como “jogo de combinação com elementos claros e distintos”, como os próprios fotógrafos e críticos. Esses elementos estão na estrutura do aparelho, nas teorias aplicadas na construção de todo o material necessário para se construir uma câmera, para se fazer fotografia. Papel, lentes, filmes, etc. Todo o processo de abstração dos eventos, transmutados na fotografia como mera cena, para Flusser, dependem da categorização que todos esses elementos irão gerar, que com uma boa sacada resume a condição digamos, cognitiva da fotografia enquanto tentativa de apreender algum dado da realidade:
Em fenomenologia fotográfica, Kant é inevitável.
Para Kant, conhecemos segundo podemos conhecer, mas não conhecemos a “coisa-em-si”. Flusser identifica na fotografia a metáfora mais precisa da incognoscibilidade do “númeno” defendida pelo baixinho de Köenigsberg. Com fotos e câmeras, tudo o que temos é “fenômeno”. Para superar a alienação que aparelhos com essa condição geraram nos homens da cultura massificada, que pensou o aparelho e agora pensa sob as categorias do aparelho (e Flusser lembra que o mesmo processo aconteceu no século XVIII – o “mecanicismo”) há que se debruçar sobre os quatro problemas essenciais da fotografia, que Flusser aponta: o do aparelho, que é “infra-humanamente estúpido e pode ser enganado”; os programas, que permitem a inserção de elementos humanos não previstos; as informações que implicam símbolos; e a imagem que implica magia. Os fotógrafos experimentais, segundo Flusser sabem que são os problemas da imagem, do aparelho, dos programas e das informações que devem ser resolvidos.
“Urge uma filosofia da fotografia para que a práxis fotográfica seja conscientizada” afirma Flusser, que, com tais reflexões e análises, remete à crítica de C. S. Lewis sobre a produção de conhecimento técnico do homem, que antes de libertá-lo, escraviza-o. “A conquista da Natureza pelo Homem, caso se realizem os sonhos de alguns cientistas planejadores, significaria que algumas centenas de homens estariam governando os destinos de bilhões e bilhões.” Para Lewis, a cada avanço tecnológico, a humanidade corre o risco de aumentar o domínio do homem pelo homem, e não necessariamente aumentar o domínio do homem sobre a natureza. Flusser parece ter uma visão muito clara disso, e considera a atividade filosófica como uma busca pela liberdade. No que concerne à fotografia, seu esforço neste sentido fica evidente na seguinte declaração: “a filosofia da fotografia é necessária porque é reflexão sobre possibilidades de se viver livremente num mundo programado por aparelhos. Reflexão sobre o significado que o homem pode dar a vida”.
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